The great case of Benjamin Gatsby

Recentemente, li “The curious case of Benjamin Button”, conto do F. Scott Fitzgerald publicado no livro Tales of the jazz era. O texto é uma beleza: o estranhamento dos leitores diante da ausência de questionamento dos personagens ao redor a respeito da situação de Benjamin traz uma aflição inexplicável misturando humor, melancolia e dúvida.

Durante a leitura, a primeira vez que nos deparamos com Benjamin é através dos olhos dos outros: do médico, que o trata como uma aberração, o ignora; da enfermeira, que o lamenta e de seu próprio pai, que de início o rejeita. Quando podemos ver o próprio recém-nascido old man agir e falar por si, surge um personagem formado, pronto para o mundo e até descontente por estar ali. Esse personagem vai se desconstruindo, pois Benjamin “nasce velho” e, com o passar dos anos, vai “growing younger”, ficando mais jovem. Seu tempo passa voltando, e o grande paradoxo do conto é, numa história de apresentação e formação de um personagem, ver esse personagem ficando mais fraco e mais difuso com seu desenvolvimento.

Benjamin Button não consegue apreender ou viver nada que dure, apenas momentos pontuais, cuja passagem do tempo ao revés impedem a sua permanência além do registro momentâneo. Vive o que o tempo lhe permite em breves intervalos, até que seja obrigado a seguir o seu caminho oposto.

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O único texto de Fitzgerald que tinha lido antes – mais de uma vez, e gosto demais – é The Great Gatsby, e não pude deixar de relacionar o final do livro com toda a temática de “The curious case…”. Com uma das frases mais marcantes da literatura, Fitzgerald conclui seu romance, a história de Nick Carraway:

 “So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.”

“E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado.”

“The curious case…” foi publicado em 1922, e The Great Gatsby, em 1925. Ao lermos os dois textos é impossível não notar o diálogo entre ambos – que é pano de fundo comum de toda a obra de Fitzgerald – o mesmo contexto, a ambientação, a alta sociedade, o figurino. Depois, as linhas finais do Gatsby, de uma melancolia profunda, funcionam como uma espécie de síntese do conto escrito anos antes, como se os temas do tempo, da busca e da formação perseguissem o autor – ou o autor os perseguisse – incansavelmente; como se seus personagens andassem todos atrás da essência, daquilo que nos define e explica-se.

 

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