Torturante rima com Ferrante

 

dias de abanEnquanto lia Dias de Abandono, da italiana Elena Ferrante, pensava o tempo todo em largar o livro, parar de lê-lo e deixá-lo num canto qualquer da cidade, com uma dedicatória: “A quem encontrou este livro: boa sorte”.

Mas insisti, em nome dos dois primeiros livros da tetralogia, A Amiga Genial e História do Novo Sobrenome, que amei, que não conseguia largar, que me fez continuar sentada no metrô mesmo chegando à estação, várias e várias vezes.

A situação emocional que vive Olga, a narradora, uma mulher abandonada de repente pelo marido, é o que nos faz querer desistir e abandoná-la também. É tão difícil acompanhar seu sofrimento, a perda do fio, a ausência da relação da personagem com a realidade, que o leitor fica aflito, buscando qualquer caminho narrativo que conduza a história.

Acompanhamos Olga tentando desesperadamente superar a dor e ater-se à realidade, aos filhos e aos cuidados da casa. Porém, isso é impossível: a personagem é constantemente dominada pelo pensamento obsessivo no passado, numa espiral descendente, em que cada ação iniciada fica em aberto, sem conclusão.

É muito difícil encontrar a realidade quando nos encontramos imersos em nossa própria dor e somos sugados por ela, e assim, para o leitor, é difícil acompanhar a narração. Me senti muitas vezes como as crianças diante de um filme de terror, quando, podendo ver o monstro, gritam para que os personagens saiam do cômodo ou não virem uma esquina. Repetia: “Saia já daí, volte já para casa, você deixou o fogão ligado, seu filho está ardendo em febre, seu cachorro morreu, faça alguma coisa, mulher, pelo amor de Deus!”, enquanto a via andar de um lado para o outro do apartamento, alheia.

Quando a narrativa atinge o auge do insuportável acontece a virada, e, com a morte do cachorro, depois de uma longa (ou curta) agonia (que nos faz também agonizar), parece que se abre uma janela, que bate um vento agradável, que as frases têm pausas para respiração — fiquei feliz por não ter desistido, por acompanhar a “recuperação” da personagem e da narrativa, do fio da realidade. A sua volta ao lar.

Depois das minhas leituras, tenho o costume de googlar as obras para ver o que falaram sobre elas. Quando acabei Dias de Abandono fiz o mesmo, e fiquei feliz de encontrar uma resenha da Fran, eterna e querida ex-chefe, resumindo a minha sensação sobre o livro logo: “Ferrante leva leitor a devorar livro para se livrar de sofrimento”. O texto todo está aqui.

Se você estiver passando por dias ruins, será uma leitura torturante. Se você estiver bem contentinho, melhor. Se você ficou curioso, vá atrás, mas já está avisado.

 

 

Boa leitura!

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