Tradução: O enterro prematuro

Edgar Allan Poe dispensa apresentações, mas sobre O enterro prematuro (The premature burial), conto de 1844, vale fazer algumas observações.

Como o próprio título anuncia, o conto trata de enterros prematuros – da situação de pessoas serem, por engano, enterradas vivas. Logo nas primeiras linhas, depois de relembrar diversas tragédias coletivas que atraem a curiosidade humana, o narrador anuncia a tragédia pessoal do sepultamento vivo como a verdadeira e pior desgraça que pode ocorrer a alguém. Em contraponto àquelas, esta ocorre em silêncio, raramente é descoberta (e mais raramente ainda a tempo) e, talvez por isso, seja mais dolorosa, com toda a Desgraça (letra maiúscula mesmo, um recurso de Poe – hehe) abatendo-se sobre um único ser, solitário e impedido de correr.

Nos primeiros parágrafos está embutida na reflexão do tema uma breve consideração acerca do ato de narrar: o narrador discorre sobre o interesse humano por histórias, sobre como algumas histórias apelam mais para a imaginação do que outras e sobre por que os romancistas devem afastar-se desse tipo de história – que deve ser trabalhado apenas “quando o rigor e a excelência da verdade os sustentam”. Assim, o autor já legitima sua narrativa em relação a outras.

É atrás dessa verdade essencial que o narrador vai nos parágrafos que seguem. A partir da revelação de casos comprovados pela ciência, relatórios médicos e histórias verídicas de sepultamento em vida, vamos conhecendo em detalhes a matéria em questão e conhecendo, ao mesmo tempo, a obsessão do narrador a respeito do assunto – seu maior pavor, sua tortura, seu demônio pessoal. De fato, as histórias são repugnantes e cheias de terror, e a riqueza de detalhes e precisão de vocabulário confirmam mais uma vez que ele sabia mesmo do que estava falando.

O narrador, então, para de expor histórias alheias e inicia a própria história como que desafiando o leitor, como se fosse necessário provocá-lo um pouco mais ou, ainda, evocar o rigor e a excelência da verdade, acima mencionados. Será que todos os casos narrados antes eram ficcionais, imaginados por um narrador obcecado com o tema – como ele mesmo se apresenta – para introduzir o seu terror pessoal?

É muito interessante observar a mudança de tom – de frio e cético, nas histórias de terceiros, para subjetivo, eloquente e dramático na narração da história particular, quando revela seus ataques de catalepsia, seu medo constante de sucumbir à tragédia, seus delírios pavorosos e as maneiras que encontrara para tentar “driblar” a morte.

O pavor do narrador é tamanho, e sua precaução, tão obsessiva, que se torna cômica mesmo diante de tanto desespero (como não gargalhar do caixão “adaptado”?). Fica claro que ele vivia para a sua morte, ou então, vivia para morrer. E essa ondulação – das visões e delírios subjetivos à tentativa objetiva de controlar a morte, o percurso do terror ao riso – traz um ritmo alucinado à segunda metade do conto, que se acalma somente nos dois últimos parágrafos.

A conclusão é brilhante. A partir de seu reestabelecimento e de sua cura após a experiência “catártica” de morte ele passa a viver de verdade, “como uma pessoa viva”. Como se a atenção exagerada no assunto da morte fizesse dele um morto-caminhante, enterrado, de fato, não na terra úmida que ele tanto temia, mas em seu próprio terror pessoal. Ao se libertar e respirar o ar puro depois de “viver uma morte”, ao “passar pela morte”, lhe foi possível viver plenamente. Essa duplicidade criada por Poe é muito poética, ainda mais se amarrada à duplicidade realidade/ficção anunciada no começo do conto.

O narrador finaliza insinuando que os seus demônios eram, em grande parte, narrativas de sua imaginação, sobre as quais não possuía nenhum controle. Mais uma vez nos confrontamos com o tema da criação de narrativas exposto no início do conto: o narrador contara tantas vezes a própria morte a si mesmo que essas narrativas tomaram o lugar da verdade – que ele estava vivo. Para finalizar ele aconselha a nós, leitores, que mantenhamos os nossos demônios sob controle, adormecidos, pois, se insistimos em escavar nossos terrores, podemos acabar enterrados em nossa própria escuridão.

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Tudo isso para dizer que, enfim, a minha tradução ficou pronta, e aqui está ela, neste pdf bonitinho: O enterro prematuro.

2 pensamentos em “Tradução: O enterro prematuro”

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