Tradução: “Solilóquio conjugal de Tom Pax”, Fanny Fern

A Sra. Pax é escritora. Sabia disso quando a desposei. A ideia me agradava. Era uma experiência nova para mim. Não tinha uma ideia muito clara de como seria ter uma esposa que pertence ao público. Acreditava que casamento era casamento, intelectos, inclusive. Estava enganado. A Sra. Pax é muito gentil; não digo o contrário. Muito solícita; não pense que não. Quando coloco os braços em volta da cintura de Sra. Pax, e digo “Mary, eu te amo”, ela sorri de um jeito ausente, a cabeça nas nuvens, e comenta “Sim, hoje é quarta-feira, certo? Preciso escrever um artigo para a ‘Gazeta Monopolizadora’”. Isso arrefece meu ânimo, mas logo em seguida reforço, afetuoso: “Mary, eu te amo”; ela responde (ainda distraída): “Obrigada. O que você acha de ‘A criança abandonada’ para o título do próximo artigo na Monopolizadora?”.

A Sra. Pax costura todos os botões de minhas camisas com um bom-humor esfuziante; não pense que não; porém, com os pensamentos ainda na Monopolizadora, ela os prega no colarinho, e não nos punhos. Eis um inconveniente. Mesmo assim, Sra. Pax é a gentileza em pessoa; não tenho do que reclamar.

Gosto muito de caminhar. Depois do jantar, quando convido a Sra. Pax: “Mary, vamos dar uma volta?”, ela responde “Sim, com certeza! Preciso ir ao Centro da cidade para ler a revisão do meu artigo para a Monopolizadora”. Então, acompanho a Sra. Pax até o Centro. Depois do chá, pergunto: “Mary, vamos ao teatro hoje à noite?”; ela responde “Eu adoraria, mas o ar de lá é terrível, sempre vaza gás, e amanhã preciso estar de cabeça limpa, sabe como é, pois tenho de escrever o último capítulo de “A vida nas pradarias”, meu próximo trabalho”. Fiquei em casa com a Sra. Pax, e, sentado ao seu lado no sofá, vendo-nos a sós, confesso que no fim das contas foi muito melhor (embora deva dizer que a ópera cai muito bem à minha esposa e que gosto de acompanhá-la). Coloco os braços em volta da Sra. Pax. É um hábito que tenho. Então o criado aparece com um punhado de cartas endereçadas a “Julia Jessamine” (seu nom-de-plume). Recolho os braços de volta, pois ela diz que “provavelmente são cartas de negócios, que exigem respostas imediatas”. Ela senta à mesa e rasga os lacres. Quatro cartas são de pessoas pedindo “um autógrafo”. Um autógrafo da Sra. Pax! A quinta é de um cavalheiro que, encantado com o seu último livro, dizendo que “refletiu a sua alma” (como é que a Sra. Pax foi descobrir como refletir a alma dele?), pediu-lhe “permissão para corresponder-se com essa fascinante autora”. “Fascinante!”, minha esposa! “Sua alma!” Sra. Pax! A sexta carta é de um cavalheiro que solicita “um empréstimo de quinhentos dólares, já que foi um homem desafortunado nos negócios e ouviu dizer que o trabalho dela tem sido muito bem-remunerado”. Quinhentos dólares para Seu Fulano! De minha mulher! A sétima carta é de um homem do Oeste, pedindo-lhe que desse o seu preço para apresentar uma palestra na Associação de Moços de Pigtown. Disso eu gostei!

A Sra. Pax abre a sua escrivaninha; escrivaninha que dei a ela; pega um bloco de papéis de carta; que também lhe dei; mergulha a caneta dourada (presente meu) no tinteiro e escreve — escreve até as onze da noite. Onze! Quanto a mim, Tom Pax, seu marido… sento e espero.

Na manhã seguinte, ao despertar, digo “Mary, querida”, e ela: “Shhh! Silêncio! Acabei de pensar num assunto importantíssimo para escrever para a ‘Gazeta Monopolizadora’”. Não que eu esteja reclamando da Sra. Pax, longe disso, não que eu não goste que minha esposa seja uma escritora; eu gosto. Para ser honesto, não posso dizer que sabia exatamente com o que teria de lidar. Não sabia, por exemplo, que, ao falar sobre ela, a imprensa a chamaria de “Nossa Julia”, mas não gostaria que pensassem que tenho objeções ao fato de ela ser uma literata. Ao contrário, não estou certo de não gostar disso; mas pergunto ao editor da “Gazeta Monopolizadora”, de homem para homem — como cristão — como marido — se ele acha certo — como se sentiria no meu lugar — monopolizando os pensamentos de minha mulher logo cedo, desde as cinco da manhã? Gostaria apenas de uma resposta… Não tenho nenhum ressentimento em relação a esse animal.

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