Trechos de Tchernóbil

Como, no último post, falei sobre a dificuldade de falar sobre o livro, resolvi dividir aqui alguns trechos que destaquei durante a minha leitura. Tem muitos mais post-its no meu exemplar, mas não quero falar demais. Relendo alguns desses trechos, percebo por que é tão difícil falar: são verdades indiscutíveis.

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“Tchernóbil é um enigma que ainda tentamos decifrar. Um signo que não sabemos ler. Talvez um enigma para o século XXI. Um desafio para o nosso tempo.”

“Na noite de 26 de abril de 1986… Em apenas uma noite nos deslocamos para outro lugar na história. Demos um salto para uma nova realidade, uma realidade que está acima do nosso saber e acima da nossa imaginação. Rompeu-se o fio do tempo… O passado de súbito surgiu impotente, não havia nada nele em que pudéssemos nos apoiar; e no arquivo onipotente (assim acreditávamos) da humanidade, não se encontrou a chave que abria a porta. Mais de uma vez ouvi naqueles dias: ‘Não encontro palavras para expressar o que vi e o que vivi’; ‘Ninguém antes me contou nada parecido’; ‘Nunca li nada semelhante em livro algum, nem vi algo assim em filme algum’. Entre o momento em que aconteceu a catástrofe e o momento em que começaram a falar dela, houve uma pausa. Um momento de mudez. E todos se lembram dele…”

“Destino é a vida de um homem, história é a vida de todos nós. Eu quero narrar a história de forma a não perder de vista o destino de nenhum homem.”

“Eu avisei. Você não ouvirá nada de heroico, nada digno da pena de um escritor.”

“Lá, você cai imediatamente num mundo fantástico, numa realidade que congrega o fim do mundo e a idade da pedra.”

“Será possível que as coisas sempre ocorram assim? Os homens nunca estão à altura dos grandes acontecimentos. Os fatos sempre os superam.”

“Os heróis, um velho e seu neto, conduziram durante dois dias seguidos o gado de um colcoz próximo a Tchernóbil. Depois das filmagens, um técnico me levou a uma trincheira gigantesca, ali é que haviam enterrado todo o gado. Não me passou pela cabeça filmar aquilo. Fiquei de costas para a trincheira e me pus a filmar um episódio na melhor tradição dos documentários soviéticos: os tratoristas lendo o jornal Právda, com a seguinte manchete em letras garrafais: ‘A pátria não os abandonará”. Até tive sorte: vi uma cegonha pousando no campo. Um símbolo! Por mais terrível que seja a desgraça que nos assola, venceremos!”

“Ninguém entendia nada de nada, isso era o mais terrível. Os dosimetristas davam certas cifras, mas nos jornais líamos outras.”

“Lembro um dia em que voltava do serviço; ambos os lados da estrada eram uma autêntica paisagem lunar. Os campos, que se estendiam até o horizonte, estavam cobertos por dolomita branca. Haviam retirado e enterrado a camada superior contaminada da terra, e em seu lugar cobriram tudo com areia de dolomita. É como se não fosse a Terra, como se não fosse na Terra. Durante muito tempo essa visão me perseguiu, tentei escrever um conto. Imaginei o que se passaria aqui, como seria daqui a cem anos: algo parecido a um homem, ou alguma coisa que saltava com quatro patas, lançando as suas longas pernas traseiras para o ar; uma criatura que à noite enxergaria tudo com o seu terceiro olho; que graças à sua única orelha cravada no alto da cabeça seria capaz de ouvir a corrida de uma formiga. Apenas as formigas haviam restado, todo o resto, na terra e no céu, havia perecido.

Mandei o conto para uma revista. Responderam que aquilo não era literatura, mas conto de terror. Certamente havia me faltado talento. Mas naquela resposta, tenho a impressão de que havia outra razão. Eu ficava matutando: por que se escreve tão pouco sobre Tchernóbil? Os nossos escritores continuam a escrever sobre a guerra, sobre os campos de trabalho stalinistas, mas calam sobre Tchernóbil. Há talvez um, dois livros e acabou-se. Você acha que é mera casualidade? O acontecimento ainda está à margem da cultura. É um trauma da cultura. E a nossa única resposta é o silêncio. Fechamos os olhos como crianças pequenas e acreditamos que assim nos escondemos, que o horror não nos alcançará.”

“Reflito sobre isso. Penso neles. A morte que nos rodeia obriga a pensar muito. Eu ensino literatura russa para crianças que não são mais as mesmas de dez anos atrás. As de hoje assistem constantemente coisas e pessoas serem enterradas. Serem cobertas pela terra. Pessoas conhecidas. Casas, árvores. Tudo é enterrado. Quando fazem fila, essas crianças desmaiam, quando ficam em pé por quinze ou vinte minutos, vertem sangue pelo nariz. Não há nada que as surpreenda, que as alegre. Estão sempre sonolentas, cansadas. O rosto pálido, cinzento. Não brincam e também não brigam por nada. E se chegam a brigar, se quebram sem querer o vidro de uma janela, os professores até ficam contentes. Não se zangam, porque eles não parecem crianças. E crescem tão lentamente. Se você pede na aula que repitam algo, se você diz uma frase para que repitam em seguida, eles já não se lembram.”

“A nossa vida gira em torno de uma coisa: Tchernóbil. Onde você estava, a que distância do reator vivia? Quem viu? Quem morreu? E quem foi embora? Para onde? Lembro que nos primeiros meses os restaurantes viviam apinhados, se ouvia a balbúrdia das festas. ‘Só se vive uma vez.’ ‘Se vamos morrer, que seja com música.’ E enchiam-se de soldados, oficiais… Tchernóbil agora já não nos deixa…”

“Daqui a dezenas, centenas de anos, estes serão tempos mitológicos. Os lugares serão povoados por contos e mitos. Lendas.”

“Algumas vezes, parece que estou escrevendo o futuro…”

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