Três situações curiosas

Panos empoderados

Dia desses fui a uma feira de pequenos produtores, dessas que estão surgindo aos montes aqui em São Paulo. Vendem de tudo: comida, moda, decoração, joalheria… Adoro passear e fazer compras nelas, ver a criatividade das pessoas e perceber como, em tempos de desemprego e crise, muitas começam a vender seus produtos para “se virar” e descobrem uma nova possibilidade, a ponto de aquela se tornar sua ocupação principal. É uma oportunidade de conhecer coisas diferentes, fora do padrão das marcas comuns e em lugares muito mais agradáveis que shoppings centers.

Caminhando pela feira percebi que alguns produtos vinham com uma mensagem política, uma causa nobre, uma bandeira. Produtos com epítetos. Não me incomodo com isso… Se o produto é bom e bonito (em geral nada é barato), viro os olhos e levo (mentira, isso nunca aconteceu. Mas não é improvável… eu esqueço rápido).

Só não consigo esquecer de quando me deparei com uma banquinha de panos de prato. Não! Não eram paninhos quaisquer, do Smilinguido ou com naturezas mortas e barras crochetadas, que ganhamos de nossas avós. Eram panos de prato com mensagens de empoderamento: “Empieza el matriarcado”; “A revolução será feminista ou não será”; “Mulher bonita é a que luta”…

Não produzo nada e sequer sei segurar uma agulha de crochê, mas reconheço logo uma boa piada quando surge no meu caminho: “Lugar de mulher é onde ela quiser”… Mas esse pano vai ficar na cozinha! “Lute como uma garota”… Mas, primeiro, trate de secar essa louça!

Sangue pelas pernas

Na mesma feira encontrei uma banca de calcinhas sustentáveis (já disse que quase tudo vinha com um adjetivo, portanto, não poderiam ser apenas, meras, tão-somente, reles… calcinhas). Eram calcinhas para usarmos durante nosso período menstrual, qua absorvem o sangue sem que precisemos usar absorventes. Que legal! Viva a tecnologia! Vou levar uma. Aproximo-me da banca para comprar e leio, atrás da mesa com os produtos, as mensagens nas camisetas das vendedoras: “Chega de tabu” e “Menstruação sem tabu”.

Fui paralisada pelas frias mãos do bom senso e tal qual a Nazaré naquele meme procurei o tabu menstrual. Sangramos, sim, todo mês, todos sabem. Algumas mulheres se incomodam; outras, não. Algumas têm sintomas terríveis; outras tiram de letra. Mas… tabu? Usar absorvente seria um tabu? Seria tabu querermos permanecer limpas? A higiene, caretíssima senhora, seria o tabu?

Poderiam louvar e propagandear a praticidade de se usar uma calcinha sem absorvente, poderiam usar camisetas escrito “no more modess” (eu devia ter feito publicidade!), mas não… Tem que puxar um tabuzinho imaginário da plateleira para afirmar a genialidade do produto.

Qual será o próximo tabu que irão criar para quebrar com um novo produto? Não me surpreenderia se na próxima feira a novidade da banquinha fosse a sensacional fralda para mulheres bem-resolvidas. Sugiro um nome: “Bidê para quê?”, ou “Cagada, porém plena” (eu devia mesmo ter feito publicidade).

Conquista a ferro

Outra vez fui assistir a uma palestra sobre a tradução (eu disse TRADUÇÃO) de um livro da Virginia Woolf. Logo no início, pulou na cara da audiência ignara a sigla LGBTQVFCSY+. Poxa, assim, sem nem nos prepararmos?! E a tradução?

Falou-se da tradução, é claro. E no fim das contas foi uma boa palestra. Mas a sentença mais curiosa que ouvi durante aquelas horas, o que realmente me marcou, foi quando a palestrante, aguerrida nas questões de gênero, resolveu dissertar sobre o quão terrível era ser mulher na época de Virginia: “imaginem só, passar roupa com aqueles ferros enoooormes e pesadíssimos!”.

Graças ao feminismo, descobri, ganhamos ferros mais leves, práticos e deslizantes. Obrigada, beninas!

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