“What we talk about when we talk about love”, Raymond Carver

Adoro diálogos. Mesmo os mais vagos. Ou principalmente eles, capazes de mostrar, além das próprias palavras, as características e reações dos personagens. Gosto de imaginar os percursos da interação e o que fez cada palavra ser dita de determinada maneira, em determinada ordem, e não em outra.

Foi isso o que me atraiu imediatamente na escrita de Hemingway, nos filmes do Eric Rohmer, em David Lynch, Woody Allen e numa porção de séries. E também no conto “What we talk about when we talk about love”, de Raymond Carver, autor que não conhecia e leitura ­(e releitura) constante das últimas semanas, que vim recomendar.

Depois de ler algumas vezes o conto é possível sentir-se imerso na atmosfera de desencanto que envolve a roda de amigos. Nick, um narrador que também está na roda, observa atentamente e registra cada movimento dos presentes: Laura, sua esposa, Mel, seu amigo e Terri, esposa dele. Os quatro estão sentados à mesa da cozinha, bebendo gim, enquanto a luz do sol (voltaremos a ela) inunda a cozinha através de uma grande janela atrás da pia.

Nick descreve o cenário e logo introduz o assunto da conversa: amor. Naturalmente inicia-se uma discussão sobre seu real significado, com exemplos, com cada personagem tomando para si o controle da narrativa, tomando o comando da equipe de busca.

Ele pouco participa do diálogo, mas relata com apuro os movimentos de mãos e olhares de cada personagem, ou seja, faz a intermediação entre a cena e nós, os leitores. É interessante observar que estão sempre buscando um toque, movendo as mãos em direção a algo (muitas vezes ao copo de gim, é claro) ou buscando fixar o olhar, como se esses toques e olhares os pudessem levar à resposta, mais do que a própria fala.

Da mesma maneira que os toques são fugazes e breves, percebemos que a resposta para a pergunta inicial também é.

A narração e a observação de Nick conectam o leitor à cena em ação e estabelecem tempo e local, enquanto que as falas dos outros personagens conduzem a outros cenários e situações vividas, a partir das quais cada um tirou as próprias conclusões.

Independentemente da tensão que há entre os personagens, essa duplicidade cria uma nova tensão da narrativa, pois nós, leitores, somos levados a tentar unir essas histórias e ações para, junto com eles, chegar a uma resposta satisfatória ao enigma.

A luz, no conto, sua modulação, merece destaque na investigação dos amigos e conduz à inevitável melancolia. A cena se passa durante uma tarde, começando com a claridade brilhante do sol e encerrando-se ao anoitecer, e o narrador revela as mudanças de luz dentro da cozinha, que finda na completa escuridão, sem que ninguém se mova (“The light was draining out of the room, going back through the window were it had come from. Yet nobody made a move to get up from the table to turn on the overhead light”). O dia termina. A bebida também chega ao fim, o diálogo chega ao fim, e, diante de todos, imóveis ao redor da mesa, o que resta é silêncio.

No caminho contrário das buscas, que partem do escuro rumo à luz, à revelação, o conto se inicia repleto de sol, para acabar na escuridão, ao mesmo tempo em que se esgotam as palavras.

Num extremo de interpretação a narrativa de Carver nos faz refletir que talvez elas, as palavras, nunca sejam mesmo suficientes.

Um pensamento em ““What we talk about when we talk about love”, Raymond Carver”

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