Writing about writing #1 – Confrontos

Dizem que quando dormimos em uma cama diferente da nossa sonhamos mais ­— lembramos mais de nossos sonhos — e dormimos mais inquietos. Os sonhos têm sido muito malucos esses dias em que resolvi me enfiar em outra casa. Precisava me concentrar, então vim para um lugar onde poderia estar sozinha e, de fato, me concentrar, me concentrar todas as horas por dia. Precisava terminar trabalhos importantes, escrever projetos que estavam só na cabeça e terminar textos que estavam abandonados por “falta de tempo”. Nada como estar sozinha para cuidar de tudo isso, render, não ter distrações, ser invencível, pode crer.

Primeiro grande confronto: não ter nenhuma obrigação e nenhuma tarefa, com tempo, lugar e sossego para ler e escrever. Escrever — o que amo, digo que amo e acredito que amo, apesar de às vezes me sentir tão longe disso. Abrir o arquivo e descobrir que ele foi editado pela última vez em outubro do ano passado. Um conto. Que tive a ideia em fevereiro de 2017. E ainda não tinha acabado. E que acabei de me dar conta de que terei de recomeçar, pela terceira vez. Como é que o amor pode ser tão negligente?

O segundo confronto foi ler essa e outras ideias começadas, tentar passar as ideias que estavam só na cabeça para o papel e descobrir que elas não têm nada. Não têm ação, só enigma. Só personagens pensando. Gosto dos escritores enigmáticos. Dá névoa, das tramas encobertas, que demonstram para nós como falhamos em nossa expressão, como jamais nos compreenderemos. Mas até para essas narrativas deve haver um “plano concreto de ação”, coisas devem acontecer, senão o texto se torna mera divagação. Eles têm de divagar sobre algo e não sobre o nada. Suas vidas devem ter sentido.

Percebi com um pouco de impaciência que me dedico intensamente aos personagens e seus detalhes, às divagações mesmo, conflitos internos, e pouquíssimo aos acontecimentos. Os acontecimentos devem nos revelar os personagens — a nós e a eles mesmos. Os personagens reagem a eles, aos acontecimentos. O conto, o romance — o texto, em geral — não devem ser uma arena em que os personagens vivem seus monólogos interiores e só.

Certo. Devo, então, escrever situações e ações para os personagens agirem. Mantra: “Coisas devem acontecer para os personagens pensarem/agirem sobre elas”. Fácil. Coisas reais; não uma ideia, não uma teoria, não uma divagação simplesmente. Mas que coisas? A vida, oras. Pense nOs Mortos, do Joyce. Eveline. Sissy, que você gostou tanto. As neves do Kilimajaro. O curioso caso de Benjamin Button. Crooners. Ninguém vai rir. A janela aberta. A autopista do Sul.

Todos os contos (sim, sim, também eles cheios de divagações) possuem fatos concretos significativos que revelam personagens incríveis. E são coisas aparentemente tão simples — um baile. O marido está embriagado e sente desejo pela esposa. Está ansioso para possuí-la mas, quando chega o momento, tem a sua expectativa frustrada. Uma jovem tenta decidir se foge ou não com um homem para outro continente. A vida de uma senhora centenária. Um delírio antes da morte….

Basta pensar, então, do que vale a pena falar no mundo. As pessoas são fascinantes, mas como falar delas? Como falar do mundo? Como tirá-las da “realidade real” e construir uma realidade para ser lida? Como definir a perspectiva, o recorte? Por que todos os temas “reais” que proponho a mim mesma soam tão imbecis? Falta de imaginação para pensar seus desdobramentos? Como treinar a imaginação, então?

Mais um confronto para quem se achava a sra. Imaginação: como usá-la a meu favor NA ESCRITA? De onde partir? Como treinar o olhar para o mundo?

Não sou ingênua ou arrogante a ponto de acreditar que a realidade em que me encontro não é uma fonte inesgotável, apesar de pensar, muitas vezes, que não há nada nela que valha a pena ser recortado e recontado. Mas como identificar o que vale a pena? Essa deve ser uma dúvida que acompanha todos os escritores, de todos os tempos, e me sinto satisfeita em imaginar Joyce, por exemplo, pensando se valia a pena o seu Eveline.

Independentemente disso — de todos os confrontos e perguntas — nesses dias introspectivos consegui escrever muitas coisas. Começar ideias que estavam paradas na cabeça. Surpreender-me com o fôlego de algumas delas. Ter – oh! – ideias novas (é claro que ainda duvido que elas prestam, mas sei que vale a pena testar), e sentir que, mesmo engatinhando, o caminho pouco a pouco se abre, em frestas.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *