Writing about writing #2 – Pontes


“— Uma das coisas que mais me preocupam — diz Floriano — é descobrir quais são as minhas obrigações como escritor e mais especificamente como romancista. Claro, a primeira é a de escrever bem. Isso é elementar. Acho que estou aprendendo aos poucos. Cada livro é um exercício. Vocês devem conhecer aqueles versos de John Donne que Hemingway popularizou recentemente, usando-os como epígrafe de um de seus romances. É mais ou menos assim: Nenhum homem é uma ilha, mas um pedaço do Continente… a morte de qualquer homem me diminui, porque estou envolvido na Humanidade… et cetera… et cetera.

Tio Bicho cerra os olhos e, parodiando o ar inspirado dos declamadores de salão, murmura eruditamente:

— “And therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee.”

— Estive pensando… — continuou Floriano. — Nenhum homem é uma ilha… O diabo é que cada um de nós é mesmo uma ilha, e nessa solidão, nessa separação, na dificuldade de comunicação e verdadeira comunhão com os outros, reside quase toda a angústia de existir.

Irmão Zeca olha para o soalho, pensativo, talvez sem saber ainda se está ou não de acordo com as ideias do amigo.

— Cada homem — prossegue este último — é uma ilha com seu clima, sua fauna, sua flora e sua história particulares.

— E sua erosão — completa Tio Bicho.

— Exatamente. E a comunicação entre as ilhas é das mais precárias, por mais que as aparências sugiram o contrário. São pontes que o vento leva, às vezes apenas sinais semafóricos, mensagens truncadas escritas num código cuja chave ninguém possui.

Cala-se. Conseguirá ele agora estabelecer comunicação com essas quatro ilhas de hábitos tão diferentes dos seus?

— Tenho a impressão — continua — de que as ilhas do arquipélago humano sentem dum modo ou de outro a nostalgia do Continente, ao qual anseiam por se unirem. Muitos pensam resolver o problema da solidão e da separação da maneira que há pouco se mencionou, isto é, aderindo a um grupo social, refugiando-se e dissolvendo-se nele, mesmo com o sacrifício da própria personalidade. E se o grupo tem o caráter agressivo e imperialista, lá estão as suas ilhas a se prepararem, a se armarem para a guerra, a fim de conquistarem outros arquipélagos. Porque dominar e destruir também é uma maneira de integração, de comunhão, pois não é esse o espírito da antropofagia ritual?

[…]

— O que importa para cada ilha — prossegue Floriano — é vencer a solidão, o estado de alienação, o tédio ou o medo que o isolamento lhe provoca.

Faz uma pausa, dá alguns passos no quarto, com a vaga desconfiança de que se está tornando aborrecido. Mas continua:

— Estou chegando à conclusão de que um dos principais objetivos do romancista é o de criar, na medida de suas possibilidades, meios de comunicação entre as ilhas de seu arquipélago… construir pontes… inventar uma linguagem, tudo isto sem esquecer que é um artista, e não um propagandista político, um profeta religioso ou um mero amanuense…”

O TEMPO E O VENTO – PARTE 3

O arquipélago vol. I

Erico Verissimo

*

No mesmo dia em que li esse trecho pela primeira vez meu professor me apresentou também este outro:

“A escrita sempre pressupõe uma longa conversa consigo mesmo que aspira a se tornar uma longa conversa com todos os homens.” – Louis Lavelle

Impossível não relacionar os dois e associar essa longa conversa de que fala Lavelle com a mesma tentativa de construir pontes que Erico Verissimo expõe através da fala de Floriano. A tentativa de estabelecer um diálogo franco, limpo e verdadeiro consigo mesmo podendo, então, fazê-lo chegar a cada ilha.

Consequentemente, impossível não relacionar a teoria nos dois trechos e a minha surpresa com a leitura: estou tentando terminar um conto com esse mesmo mote (a incomunicabilidade: será o tema de todos os temas, que está por trás de todos os temas? O tema “intrínseco”? A condição?) e fiquei sem palavras diante desse trecho do romance que copiei aqui (arrebatada? Impressionada? Como melhor me comunicar, aqui? Como construir a ponte sólida?).

Uma ponte. Uma ponte foi erguida, enfim, entre o texto e a leitora: a mesma ponte que liga também os dois textos.

Tudo faz sentido por um momento. A ponte é e deve ser firme, imponente e robusta, mas às vezes, mergulhada no espaço infinito entre as ilhas do arquipélago, a névoa a encobre. Depois, a redescobrimos. São os trechos que nos marcam, os livros, os parágrafos exatos que nos colocam em silêncio e aos quais recorremos para sentir novamente e saber que… existem.

Na existência solitária de nossa ilha é necessário buscar a matéria-prima — esses tijolos, o cimento, o cálculo, o ferro, o fio da voz. É necessário cavar o chão, vasculhar entre as pedras e caçar na vegetação — para se arriscar a construir novas pontes e deixar a deriva.

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